Os primeiros pensadores gregos (pré-socráticos) definem natureza como physis. Essa palavra grega possui o prefixo phyo (ser, brotar), sis (aquilo que permanece). Assim, physis é aquilo que brota e permanece brotando. A natureza é algo que brota e permanece.
Se tudo brota espontaneamente e a natureza é o "ser", não há nada fora da natureza. Por exemplo, os mitos não são sobrenaturais, simplesmente são metáforas para explicar fenômenos. Assim, tudo é physis.
Platão e Aristóteles concebem physis como oposta à techné (técnica [capacidade de produzir objetos por meios racionais]). Assim, há coisas que brotam espontaneamente e há coisas que o ser humano faz brotar.
Com o cristianismo, surge o conceito do natural (que está na ordem comum das coisas) e o sobrenatural (aquilo que está na ordem do celestial, do espiritual).
E qual é o movimento da modernidade a respeito à natureza? É daqui que eu acho que surge o progressismo. A modernidade concebe a natureza como res extensa [ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Res_extensa]. Para Descartes, a res extensa são as realidades exteriores à consciência. Essa natureza é identificada como mecânica, como determinada por leis necessárias. Por outro lado, as realidades da subjetividade e da consciência são livres. Isso leva Hegel a definir a natureza como "espírito não livre" ou "espírito inconsciente". Daí surge a "ciência do espírito", que estuda os entes livres e as ciências naturais, que estuda entes não livres, determinados pelas leis mecânicas.
Para o moderno, o homem é espírito e está fora da natureza. A natureza é exterior à identidade do sujeito. Para os modernos, como Descarte, "eu não sou corpóreo", mas apenas "eu tenho um corpo". Então, meu corpo não compõe minha identidade. Isso é muito importante para a ideologia de gênero.
Se a natureza, ou seja, aquilo que dá conta de nossa identidade, aquilo que vem dado (eu o chamo metafisicamente de heteronomia, a lei que é dada por outro -esse outro pode ser a natureza, Deus, o ser).
Essa heteronomia, para o moderno, é extrínseca, está fora do sujeito. E essa é uma determinação que oprime o sujeito em sua liberdade.
Ao contrário, para a tradição clássica, essa heteronomia não é extrínseca, é imanente, ou seja, faz parte de uma lei em que o sujeito deve se desenvolver, na qual as potencialidades do sujeito (que são naturais) devem encontrar o aperfeiçoamento na ordem natural.
Assim, para nós a heteronomia é imanente, para os modernos é extrínseca. Portanto, para nós, a autonomia deve se abrir à transcendência que vem dada e para eles a autonomia tem que ser imanente, ou seja, a autonomia é a capacidade que o sujeito tem de autolegislar-se. Com esse tipo de raciocínio, como não surgiria o progressismo na filosofia moderna.
AL: A ética kantiana pode ser vista como um ataque à natureza das paixões ou contra as inclinações naturais. É um domínio contra forças que não estão determinadas pela razão. Tudo o que não é determinado pela razão passa a ser um objeto de preocupação.
Então, a origem do progressismo é eminentemente moderna. E distintos sistemas filosóficos possuem essa raiz progressita (tanto racionalistas, idealistas, marxistas, certos tipos de liberais). Como foi se dando esse desenvolvimento?
JR: A chave para entender o progressismo, em suas duas variantes políticas (liberalismo e socialismo) é a liberdade negativa, ou seja, ausência de coação externa. Por exemplo, na economia seria a ausência da coação do Estado no mercado ou a ausência da coação moral na livre determinação do indivíduo.
Em termos de liberdade negativa, pode-se rastrear a origem do progressismo em Dun Scotus. Para ele, a vontade pode ser absoluta ou ordenada. A vontade é ordenada quando está sujeita a uma lei superior, à qual ela só pode se sujeitar, se ordenar. Por exemplo, uma pessoa precisa ordenar sua liberdade às leis civis, pois, se não o faz, basicamente vai perder a liberdade. Para um cristão, a liberdade é ordenada aos mandamentos de Deus.
Scotus diz que uma pessoa é verdadeiramente livre não quando exerce a vontade ordenada, mas sim a vontade absoluta, ou seja, aquela capacidade de criar a regra. Assim, a vontade absoluta cria a realidade.
Ele diz que as coisas não são queridas por serem boas, mas são boas porque são queridas; as coisas não são proibidas porque são más, mas são más porque são proibidas.
Assim, aquele que tem poder é o que tem condições de impor a ordem da realidade.
Isso chega a Kant (ideia de liberdade negativa, ou seja, indeterminar a capacidade de elicitar a vontade sem determinação alguma, de qualquer ordem, seja moral, histórica,teológica). Evidentemente, isso desemboca nos filósofos do maio francês, por exemplo, Sartre e sua companheira Simone de Beauvoir. Sartre faz eco de tudo isso e afirma: "Se Deus existe, Deus deu uma essência ao homem. Portanto, se o homem tem uma essência dada por Deus, o homem, em suas operações, está determinado a operar segundo a essência que Deus lhe deu". Sartre está seguindo um lema de Santo Agostinho, que diz "operare sequitur esse" (a operação segue a essência, o agir segue a natureza), ou seja, de que o homem sempre opera em virtude de seu ordenamento natural. Mas, diz Sartre, o homem, para ser livre, não pode ter uma essência, porque, se tivesse, deveria operar segundo essa essência. Para que o homem seja livre, não pode ter uma essência. Portanto, se o homem não tem uma essência, porque somos livres, Deus não existe.
Esse raciocínio é pobre, de aluno de 1o ano de filosofia, porque não é difícil entender que o homem consta de duas naturezas (a primeira, que é dada e não está disponível à mudança, e a natureza segunda, que é a personalidade em sua conduta, seu caráter, que sim são modificáveis). Isso é conhecido de qualquer filósofo. Sartre, deixando isso de lado, diz que se o homem não tem essência não é livre. Então, como Simone de Beauvoir não diria que "ninguém nasce mulher, faz-se mulher". Se o homem nasce sem essência, então nasce livre.
AL: o existencialismo parte de um axioma segundo o qual a existência precede a essência. A essência é apenas uma ilusão, provocada no desenvolvimento da existência. Isso coloca tudo de cabeça para baixo e dá origem aos célebres slogans do maio francês, como "proibido proibir", "sejamos realistas, peçamos o impossível", porque não haveria mais predeterminação, ou seja, já não há uma determinação que transcenda minhas possibilidades, mas de alguma maneira tenho uma potência infinita. Se algo está limitando minha potência, então é uma opressão. E aí aparece o caldo de cultura que foi chamado por [??] (um filósofo australiano conservador) de "teoria pura da ideologia". Para esse filósofo, a ideologia sempre tem esse condimento de "se eu não posso atualizar toda a minha potência, tudo o que eu gostaria de ser e fazer, é porque há um opressor que está impedindo que eu faça isso". Na época dos iluministas, era a tradição, a autoridade. Na época do marxismo, era a classe burguesa, a ordem capitalista, a sociedade de mercado. Na época atual, é o sistema patriarcal, os brancos, os heterossexuais, o ser humano (no caso do especismo), e assim sucessivamente. A ideia de fundo é sempre a mesma: eu posso me autodeterminar, da forma que eu quiser, e se eu não puder fazê-lo não é porque há uma ordem natural que está me impedindo, mas sim por culpa dos outros. Um exemplo é Foucault. Ele chegou a pensar que as tecnologias para evitar a AIDS (como o preservativo) eram artefatos criados por uma ordem, diríamos hoje, heteronormativa. Ele escrevia contra os hospitais e contra a ciência e o saber médicos (como estruturante de relações de poder), e acabou morrendo de AIDS em um hospital. Ou seja, havia uma ordem natural que se impôs a Foucault indefectivelmente.
Isso acontece com os progressistas. Quando são constrangidos pela ordem natural, terminam ressentidos pela vida em geral, e, portanto, são captáveis politicamente. Porque, se eu entendo que não posso tudo, que preciso me ajustar a certa ordem, então posso me adaptar. Mas se eu fui conquistado pela ideia progressista, sempre vou encontrar um culpado, um sistema, uma pessoa, sobre o qual toda minha frustração recai. E assim acabo fazendo política com tudo: até com o peso das pessoas (como o gordofobia).
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