Leonardo Brum
Instituto Jackson de Figueiredo
Distinção entre IG e a pauta do movimento LGBT e do movimento feminista. A IG não são as reivindicações desses movimentos tomados em conjunto. A IG é um conjunto de ideias que se fundamentam em uma tese específica.
Note essas teses:
1. "Travestis têm o direito de frequentar o banheiro feminino em locais abertos ao público". Depende da IG.
2. "A união de pessoas do mesmo sexo deve ser reconhecida pelo Estado". É indiferente à IG.
3. "Apenas mulheres abortam. Logo, homens não devem falar sobre o aborto". É contra a IG.
Como não discutir a IG?
Exemplo de erro de quem é contra, seguinte argumento: "Os ideólogos da IG dizem que não se nasce mulher. Ora, mulher é o ser humano do sexo feminino. Logo, os ideólogos de gênero dizem que as crianças nascem sem sexo". Esse argumento mistura, nas premissas, concepções de quem é a favor (premissa maior) e de quem é contrário (premissa menor), já que, para a IG, mulher não é quem tem o sexo feminino.
Do lado de quem é a favor, argumento errado: "Os conservadores não querem discutir gênero nas escolas. Mas mulher é uma identidade de gênero. Logo, os conservadores não querem discutir a violência contra a mulher nas escolas". Essa conclusão também é errada, porque está havendo a mesma mistura de ideias.
Com essa mistura, aquilo que é ponto pacífico entre ambos ("As crianças nascem com sexo masculino ou feminino", "É necessário discutir a violência contra a mulher") vira polêmica. E aquilo que é a controvérsia ("mulher é um dado da natureza ou é uma construção social?") passa a ser tratado como ponto pacífico.
Ideologia x Teoria x Perspectiva
Acreditamos tratar-se de ideologia, mas, em um primeiro momento, devemos usar a palavra "perspectiva", que não cria polêmica desnecessária. Perspectiva de gênero é o ato de se valer do conceito de gênero e, daí, de interpretar os fatos sociais de uma determinada perspectiva que não existiria se não se usasse esse conceito.
Conceito de gênero
"Gênero" não é sinônimo polido para o termo "sexo", distinguindo-se deste. Por isso, não se deve dizer: "só existem dois gêneros, homem e mulher". É melhor dizer "só existem dois sexos".
O conceito de gênero abarca três aspectos:
1. identidade: o que a pessoa é
2. papéis sociais: as funções na coletividade
3. expressões: modo de falar, se vestir, se comportar
Para discutir com uma pessoa que defende a perspectiva de gênero podemos partir da seguinte tese, que também é aceita por eles: a distinção entre homem e mulher é fundamental para a ordem social. Eles costumam aceitar, porque normalmente partem de uma concepção semelhante à luta de classes, em que a mulher está no lugar do oprimido. E não haveria possibilidade de defender os direitos da mulher se não fosse possível distinguir quem é mulher e quem não é.
Portanto, essa é uma premissa comum. Nosso desafio é provar que se a perspectiva de gênero (PG) for levada às suas últimas consequências lógicas, ela faz com que essa distinção fique impossível.
Os defensores da PG alegam que existem quatro variáveis independentes na condição humana, que podem se conjugar livremente:
1. sexo biológico (masculino ou feminino)
2. identidade de gênero (seriam diversas, mas para simplificar vamos usar as duas que são contempladas por nosso ordenamento jurídico: homem e mulher)
3. condição de gênero (cisgênero e transgênero)
4. orientação sexual: heterossexual, homossexual e bissexual.
O cerne da IG é a distinção entre "sexo masculino" e "homem" ou entre "sexo feminino e mulher". Tudo o que depender dessa distinção é IG. O que não depender dessa ideia, mesmo que seja pauta do movimento feminista ou LGBT, não é IG.
A condição de gênero (3) é variável decorrente da vida social. Quando alguém nasce, é-lhe designado um sexo (masculino ou feminino) e a sociedade lhe atribui uma identidade de gênero correspondente ao sexo (masculino-homem, feminino-mulher). Mas a pessoa pode crescer e perceber que não tem a identidade de gênero que lhe foi atribuída. Assim, quando ela transita de uma identidade a outra, é chamada pessoa transgênera. Quando isso não acontece, é chamada de cisgênera. Para o cidadão comum, o sexo biológico corresponde à identidade de gênero (masculino = homem; feminino = mulher). Portanto, só cabe a existência de cisgêneros e não de transgêneros. E é por isso que essa visão é chamada de transfóbica.
Quanto à orientação sexual, para a IG a distinção se dará com base não no sexo, mas na identidade de gênero. Assim, pouco importa o corpo. Será homossexual aquele que se percebe como homem, mas tem interesse sexual em outro que se percebe também como homem.
A discussão sobre o gênero não é sobre valores, mas sobre fatos.
[cita https://celebridades.uol.com.br/noticias/redacao/2015/06/24/leo-aquilla-e-noivo-vao-se-casar-na-igreja-somos-um-casal-heterossexual.htm#:~:text=Somos%20um%20casal%20heterossexual.,realiza%20esse%20tipo%20de%20casamento.]
Na perspectiva de gênero, um homem cisgênero pode perfeitamente entrar em um banheiro público feminino com sua esposa alegando ser mulher trans, porque assim se percebe. Se lhe disserem, mas você é homem, poderá responder: "sou mulher trans, se na sua mente não há lugar para trans e só cisgênero, você é transfóbico". Se alguém lhe disser, "você está acompanhado de sua esposa", poderá responder: "sou uma mulher trans homossexual, se você não aceita isso, então é homofóbico". Se ainda disserem: "você se veste como homem", poderá dizer "mulher se veste como quiser, você está sendo machista".
Assim, se a perspectiva de gênero for levada às últimas consequências, a tese em comum anterior ("a distinção entre homem e mulher é fundamental para a ordem social") se torna impossível. Os adeptos da IG se recusam a levar a perspectiva de gênero até essas últimas consequências, afirmando ser apenas para preservar as pessoas do preconceito.
O caso do menino Arthur.
Uma das coisas que colocam o defensor da IG contra a parede é perguntar: "qual a diferença entre homem e mulher?". Dificilmente poderá dar uma resposta sem que seja baseada no sexo (pois seria transfóbico), sem se basear na orientação sexual (pois seria homofóbico) e sem se basear no comportamento (pois estaria cerceando a liberdade). Podem responder evasivamente: "existem muitas formas de ser mulher", então pode-se perguntar: "então, de que forma não se é mulher?".
Se a identidade de gênero é mera percepção, que não pode ser verificada por nenhuma manifestação, como saber que uma pessoa que se sente mulher está sentindo a mesma coisa de outra pessoa que afirma o mesmo? Não é possível verificar que são a mesma coisa, e sendo assim, não tem porque chamar pelo mesmo nome.
Transfobia é negar a perspectiva de gênero. Quando se afirma que o homem e a mulher são, respectivamente, o macho e a fêmea da espécie humana, isso é visto pelos adeptos da PG como transfobia.
Casos esportivos.
[cita esse caso do estuprador inglês que se declarou mulher, foi preso em presídio feminino e abusou de presidiárias: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45482538]
A perspectiva de gênero impossibilita a distinção entre homens e mulheres, o que vai contra a premissa inicial. Logo, a PG é prejudicial à ordem social. Segue-se o raciocínio:
PM: a distinção entre homem e mulher é fundamental para a ordem social
pm: a perspectiva de gênero impossibilita essa distinção.
C: Logo, a perspectiva de gênero é prejudicial à ordem social.
Foram usadas aqui as identidades de gênero "homem" e "mulher" por serem as mais comuns e as que têm status jurídico. Mas as identidades de gênero não se resumem a essas duas, segundo os adeptos da PG. [ver uma lista de identidades não binárias aqui: https://orientando.org/listas/lista-de-generos/].
[apresenta um video, de um seminário sobre a perspectiva de gênero]
Já tínhamos chegado à conclusão de que a distinção entre homem e mulher é impossibilitada pela perspectiva de gênero. Dentro dessa perspectiva, a pessoa não precisa mudar nada em sua vida para começar a se afirmar como mulher (não precisa fazer cirurgia, mudar nome, se vestir diferente, etc.). Assim, se a PG for levada às últimas consequências, a distinção acaba.
Com a PG, não faz mais sentido falar em "homem" e "mulher". E pessoas como a palestrante do vídeo sabem disso. Ela diz "nós sabemos que não existe mulher. Mulher é um símbolo e, como todo símbolo, é unitário, autoritário e impositivo. Mas nós usamos esse símbolo para construir uma agenda unificada de luta. E isso se chama 'essencialismo estratégico'." Ela se opõe a esse essencialismo estratégico porque acha melhor o discurso da teoria queer, que defende a multiplicidade das identidades. No video, ela confessa que existe uma estratégia política. Eles sabem que não existe mulher, mas negá-lo abertamente é radical demais para a sociedade atual aceitar. Então, segundo o essencialismo estratégico afirma que é necessário continuar afirmando o binarismo homem-mulher, para avançar uma agenda. Assim, os travestis estão sendo convencidos a se identificarem como mulheres por pessoas que não acreditam que exista mulher. Eles estão sendo usados como massa de manobra.
Ou seja, a elite intelectual que está por trás da ideologia de gênero sabe das suas contradições e sabe do seu sem sentido, mas sabem também que é politicamente útil. Algo para ter sucesso político não precisa ter coerência lógica.
Então se os adeptos da PG afirmam algo que sabem que não existe, em nome de uma estratégia política, temos uma ideologia.
Para a esquerda como um todo, só existem três possibilidades.
1. Desiste da IG (como fazem as radfems e o PCO)
2. Adota o essencialismo estratégico, mas isso acarreta nas contradições.
3. Avança para a teoria queer e sacrificar os conceitos "homem" e "mulher", e também os conceitos "hetero" e "homo".
A IG é contrária ao feminismo e às lutas em favor dos homossexuais.
Exemplificando o queer. Uma pessoa falando sobre sua identidade de gênero em uma rede social: "Adicionalmente, a combinação de genderflux e genderfluid pode ser chamada fluidflux. Eu sou mais ou menos assim, só que com neutrois e pangênero... daí eu experiencio uma infinidade de possíveis estados demi-neutrois graduais. Como é uma trasição por borrão, eu chamo de blurflux (genderflux + fluidflux/genderflusx). O nome completo do meu gênero é blurflux imprigênero de cadoneutrois e pangênero, porque eu sou principalmente neutrois (é o gênero ao qual eu sempre retorno - cadogênero, que você pode personalizar pra cadomenino".
[ver também isso: https://orientando.org/listas/lista-de-generos/fluxofluide/]
Assim:
"Travestis têm o direito de frequentar o banheiro feminino em locais abertos ao público" - afirmação da ideologia de gênero.
"A união entre pessoas do mesmo sexo deve ser reconhecida pelo Estado" - afirmação indiferente em relação à ideologia de gênero.
"Homens não engravidam, logo não devem falar sobre aborto" - negação da ideologia de gênero.
Precisamos regredir à base comum. Dentre todos os comportamentos sexuais possíveis, só existem três opções do ponto de vista da aceitação social. 1. todos são reprováveis; 2. todos são aceitáveis; 3. alguns são reprováveis e outros aceitáveis. Normalmente, adota-se a terceira alternativa. O que difere, entre as pessoas, é quais seriam uns e quais seriam outros. E essa distinção se dá com base em critérios doutrinais. O religioso tem uma relação explícita com a doutrina. Mas quem aprova as relações homossexuais, o fazem com base em que? Só pode ser com base ou em religião, ou em doutrina, ou em ideologia. Deve-se rastrear a origem doutrinal dessas questões.
A raiz doutrinal das pessoas que apoiam as relações homossexuais é o liberalismo. Dá o exemplo de uma pessoa que diz ser contra a tortura. Perguntada pelo motivo de ser contra, ela disse que a tortura agride a integridade física e psicológica de outra pessoa. Eis um argumento racional. Perguntada, porém, se era contra as práticas sado-masoquistas, em que estão presentes os elementos da tortura, a pessoa disse que não, porque nesse caso é consentido.
Assim, aquilo que a razão mostrou como errado, é superado pela vontade. Assim, o consenso justifica tudo.
Os católicos tomistas buscam a razão. Os liberais colocam a vontade acima da razão. Portanto, os católicos tomistas são mais racionais.
Muitas pessoas se gabam de ser livre pensadores, mas quase ninguém tem ideias originais. Tudo o que defendem ou acreditam, aprenderam com alguém, tanto quanto qualquer religioso.
Precisamos saber rastrear as origens dos pensamentos. O verdadeiro preconceituoso é aquele que não consegue rastrear a sua posição doutrinal. A linha evangélica que diz que as relações homossexuais são más porque isso está na Bíblia dá uma resposta intelectualmente muito mais decente do que quem diz "eu estou defendendo o amor contra o ódio e a posição contrária à minha é um preconceito", porque nesse caso não dá justificativa nenhuma.
Uma consequência da propagação da IG: os Municípios terão dificuldade para saber quantos ginecologistas precisam contratar, pois a informação de quantidade de "mulheres" dada pelo Registro Civil não corresponderá à população do sexo feminino.

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