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As contradições da Ideologia de Gênero

 


Leonardo Brum

Instituto Jackson de Figueiredo


00:14 Distinção entre IG e a pauta do movimento LGBT e do movimento feminista. A IG não são as reivindicações desses movimentos tomados em conjunto. A IG é um conjunto de ideias que se fundamentam em uma tese específica.


Note essas teses:


1. "Travestis têm o direito de frequentar o  banheiro feminino em locais abertos ao público". Depende da IG.


2. "A união de pessoas do mesmo sexo deve ser reconhecida pelo Estado". É indiferente à IG.


3. "Apenas mulheres abortam. Logo, homens não devem falar sobre o aborto". É contra a  IG.


03:18 Como não discutir a IG?


Exemplo de erro de quem é contra, seguinte argumento: "Os ideólogos da IG dizem que não se nasce  mulher. Ora, mulher é o ser humano do sexo feminino. Logo, os ideólogos de gênero dizem que as crianças nascem sem sexo". Esse argumento mistura, nas premissas, concepções de quem é a favor (premissa maior) e de quem é contrário (premissa menor), já que, para a IG, mulher não é quem tem o sexo feminino.


Do lado de quem é a favor, argumento errado: "Os conservadores não querem discutir gênero nas escolas. Mas mulher é uma identidade de gênero. Logo, os conservadores não querem discutir a violência contra a mulher nas escolas". Essa conclusão também é errada, porque está havendo a mesma mistura de ideias.


Com essa mistura, aquilo que é ponto pacífico entre ambos ("As crianças nascem com sexo masculino ou feminino", "É  necessário discutir a violência contra a mulher") vira polêmica. E aquilo  que é a controvérsia ("mulher é um dado da natureza ou  é uma  construção social?") passa a ser tratado como ponto  pacífico.


06:31 Ideologia  x  Teoria x Perspectiva


Acreditamos tratar-se de ideologia, mas, em  um primeiro momento,  devemos usar a palavra "perspectiva", que não  cria polêmica desnecessária. Perspectiva  de gênero é o ato de se valer do conceito de gênero e, daí, de interpretar  os  fatos sociais de  uma determinada perspectiva que não existiria se não se usasse esse conceito.


08:41 Conceito de gênero


"Gênero" não é sinônimo polido para o termo "sexo", distinguindo-se deste. Por isso,  não se deve dizer: "só  existem dois gêneros, homem e mulher". É melhor dizer "só existem dois sexos".


O conceito de gênero abarca três aspectos:


1. identidade: o que a pessoa é

2. papéis sociais: as funções na coletividade

3. expressões: modo de  falar, se vestir, se comportar


11:51 Para discutir com uma pessoa que defende a perspectiva de gênero podemos partir da seguinte tese,  que também é aceita por eles: a distinção entre homem e mulher é fundamental para a ordem social. Eles costumam aceitar, porque normalmente partem de uma  concepção semelhante à  luta de classes, em que a mulher está no lugar do oprimido. E não haveria possibilidade de defender os direitos da mulher se não fosse possível distinguir quem é mulher e quem não é. 


Portanto, essa é uma premissa comum.  Nosso desafio é provar que se a perspectiva  de gênero (PG) for levada às suas últimas consequências  lógicas, ela faz com  que essa distinção fique impossível.


13:32 Os defensores da PG alegam que existem quatro variáveis independentes na condição humana, que podem se conjugar livremente: 


1. sexo biológico (masculino ou feminino)

2. identidade de gênero (seriam diversas, mas para simplificar vamos usar as duas que são contempladas por nosso ordenamento jurídico: homem e mulher)

3. condição de gênero (cisgênero e transgênero)

4. orientação sexual: heterossexual, homossexual e bissexual.


O cerne da IG é a distinção  entre "sexo masculino" e "homem" ou  entre "sexo feminino e mulher". Tudo o que depender dessa distinção é IG. O que não depender dessa ideia, mesmo que seja pauta do movimento feminista ou LGBT, não é IG.


A condição de gênero (3) é variável decorrente da vida social. Quando alguém nasce, é-lhe designado um sexo (masculino ou feminino) e a sociedade lhe atribui uma identidade de gênero correspondente ao sexo (masculino-homem,  feminino-mulher). Mas a pessoa pode crescer e perceber que não tem a identidade de gênero que lhe foi atribuída. Assim, quando ela transita de uma identidade a outra, é chamada pessoa transgênera. Quando isso não acontece, é chamada de cisgênera23:05 Para o cidadão comum, o sexo biológico corresponde à identidade de gênero (masculino =  homem; feminino = mulher). Portanto, só cabe a existência de cisgêneros e não  de transgêneros. E é por isso que essa visão é chamada de transfóbica.


Quanto à orientação sexual, para a IG a distinção se dará com base não no sexo, mas na identidade de gênero. Assim, pouco importa o corpo. Será  homossexual aquele  que se percebe como homem, mas tem interesse  sexual em outro  que se percebe também como homem.


19:51 A discussão sobre o gênero não é sobre valores, mas sobre fatos.


26:02 [cita https://celebridades.uol.com.br/noticias/redacao/2015/06/24/leo-aquilla-e-noivo-vao-se-casar-na-igreja-somos-um-casal-heterossexual.htm#:~:text=Somos%20um%20casal%20heterossexual.,realiza%20esse%20tipo%20de%20casamento.]


31:29 Na  perspectiva de gênero, um homem  cisgênero pode perfeitamente entrar em um banheiro público feminino com sua esposa alegando ser mulher trans, porque assim se percebe. Se lhe disserem, mas você é  homem, poderá responder: "sou mulher trans, se na sua mente não há  lugar para  trans e só cisgênero, você é transfóbico". Se alguém lhe disser,  "você está  acompanhado de sua esposa", poderá responder: "sou uma mulher trans homossexual, se você não aceita isso,  então é homofóbico". Se ainda disserem: "você se veste como homem", poderá dizer "mulher se veste como quiser, você está sendo machista".40:20 


Assim, se a perspectiva de gênero for levada às últimas consequências, a  tese em comum anterior ("a distinção entre homem e mulher é fundamental para a ordem social") se torna impossível. Os adeptos da IG se recusam a  levar a perspectiva de gênero até essas  últimas consequências, afirmando ser apenas para preservar as pessoas do preconceito.


32:18 O caso do menino Arthur.


46:46 Uma das coisas que colocam o defensor da IG contra a parede é perguntar: "qual a diferença entre homem e mulher?". Dificilmente poderá dar uma resposta sem que seja baseada no sexo (pois seria transfóbico), sem se basear na orientação sexual (pois seria homofóbico) e sem se basear no comportamento (pois estaria cerceando a liberdade). Podem responder evasivamente: "existem muitas formas de ser mulher",  então pode-se perguntar: "então, de que forma não se é mulher?".





47:59 Se a identidade de gênero é mera percepção, que não pode ser verificada por nenhuma manifestação,  como saber que uma pessoa que se sente mulher está sentindo a mesma coisa de outra pessoa que afirma o mesmo? Não é possível verificar que são a mesma coisa, e sendo  assim, não tem porque chamar pelo mesmo nome.


50:48 Transfobia é negar a perspectiva de gênero. Quando se afirma que o homem e a mulher são, respectivamente, o macho e a fêmea da espécie humana, isso é visto pelos adeptos da PG como transfobia.


55:03 Casos esportivos.


1:04:00 [cita esse caso do  estuprador inglês  que se declarou mulher, foi preso em presídio feminino e abusou de presidiárias: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45482538]


1:10:24 A perspectiva de gênero impossibilita a distinção entre homens e  mulheres, o que vai contra a premissa inicial. Logo, a PG é prejudicial à ordem social. Segue-se o raciocínio:


PM: a distinção entre homem e mulher é fundamental para a ordem social

pm: a perspectiva  de gênero impossibilita essa distinção.

C: Logo, a perspectiva de gênero é prejudicial à  ordem social.


1:12:31 Foram usadas aqui as identidades de gênero "homem" e "mulher" por serem as mais comuns e as que têm status jurídico. Mas as  identidades  de gênero não se resumem a essas duas, segundo os adeptos da PG. [ver uma lista de identidades não binárias aqui: https://orientando.org/listas/lista-de-generos/].


1:14:29 [apresenta um  video, de um  seminário sobre a perspectiva de gênero]


1:17:55 Já tínhamos chegado à conclusão de que a distinção entre homem e mulher é impossibilitada pela perspectiva de gênero. Dentro dessa perspectiva, a pessoa não precisa mudar nada em sua  vida para começar a se afirmar como mulher (não precisa fazer  cirurgia, mudar nome, se vestir diferente, etc.). Assim, se a PG for levada às últimas consequências, a distinção acaba.


1:18:53 Com a PG, não faz  mais sentido falar em  "homem" e "mulher". E pessoas como a palestrante do vídeo sabem disso. Ela  diz "nós sabemos que não existe mulher. Mulher é um símbolo e, como todo símbolo, é unitário, autoritário e impositivo. Mas nós usamos esse símbolo para construir uma agenda unificada de luta. E isso se chama 'essencialismo estratégico'." Ela se opõe a esse essencialismo estratégico porque acha melhor o discurso da teoria  queer, que defende a multiplicidade das identidades. No video, ela confessa que existe uma estratégia política. Eles sabem  que não existe mulher, mas negá-lo abertamente é radical demais para a sociedade atual aceitar. Então, segundo o essencialismo estratégico afirma que é necessário continuar afirmando o binarismo homem-mulher, para avançar uma agenda. Assim, os  travestis estão sendo convencidos a  se identificarem como mulheres por pessoas que não  acreditam que exista mulher. Eles estão sendo usados como massa de manobra.


Ou seja, a elite intelectual que está por trás da ideologia de gênero sabe das suas contradições  e sabe  do seu sem sentido,  mas sabem também que é politicamente útil. Algo para ter sucesso político não precisa ter coerência lógica.


1:21:24 Então se os adeptos da PG afirmam algo que sabem que não  existe, em nome de uma estratégia política, temos uma ideologia.


1:22:01 Para a esquerda como um todo, só existem três possibilidades.


1. Desiste da IG  (como fazem as radfems e o PCO)

2. Adota o essencialismo estratégico, mas isso acarreta nas contradições.

3. Avança para a teoria queer e sacrificar os conceitos "homem" e "mulher", e também os conceitos "hetero" e "homo".


A IG é contrária ao feminismo e às lutas em favor dos homossexuais.


1:30:41 Exemplificando o queer. Uma pessoa falando sobre sua identidade de gênero em uma  rede social: "Adicionalmente, a combinação de genderflux e genderfluid pode ser chamada fluidflux. Eu sou mais ou menos assim, só que com neutrois e pangênero... daí eu experiencio uma infinidade de possíveis estados demi-neutrois  graduais. Como é uma  trasição por borrão, eu chamo de blurflux (genderflux + fluidflux/genderflusx). O nome completo do meu gênero é blurflux imprigênero de cadoneutrois e pangênero, porque eu sou principalmente neutrois (é o gênero ao qual eu sempre retorno - cadogênero, que você pode personalizar pra cadomenino".


[ver também isso: https://orientando.org/listas/lista-de-generos/fluxofluide/]


1:32:21 Assim:


"Travestis têm o direito de  frequentar o banheiro feminino em locais abertos ao público" - afirmação da ideologia de gênero.


"A união entre pessoas do mesmo sexo deve ser reconhecida pelo Estado" - afirmação indiferente em relação à ideologia de gênero.


"Homens não engravidam, logo não devem falar sobre aborto" - negação da ideologia de gênero.


1:45:05 Precisamos  regredir à base comum. Dentre todos os  comportamentos sexuais possíveis, só existem três opções do ponto de vista da aceitação social.  1. todos são reprováveis; 2. todos são aceitáveis; 3. alguns são reprováveis e outros aceitáveis. Normalmente, adota-se a terceira alternativa. O que difere, entre as pessoas, é quais seriam uns e quais seriam outros. E essa distinção se dá com base em critérios doutrinais. O  religioso tem uma relação explícita com a doutrina. Mas quem aprova as relações homossexuais, o fazem com base em que? Só pode ser com base ou em  religião, ou em  doutrina, ou em  ideologia. Deve-se rastrear a origem doutrinal dessas questões.


A  raiz doutrinal das pessoas  que apoiam as relações  homossexuais é o liberalismo. Dá o exemplo de uma pessoa  que diz ser contra a tortura. Perguntada pelo motivo de ser contra, ela disse  que a tortura agride a integridade física e psicológica de outra pessoa. Eis um argumento racional.  Perguntada, porém, se era contra as práticas sado-masoquistas, em que estão presentes os  elementos da  tortura, a pessoa disse que não,  porque nesse caso é consentido. 


Assim, aquilo  que a razão mostrou como  errado, é superado pela vontade. Assim,  o consenso justifica tudo.


Os católicos tomistas  buscam a razão. Os liberais colocam a vontade acima da razão. Portanto, os católicos tomistas são mais racionais.


Muitas pessoas se gabam de ser livre pensadores, mas quase ninguém tem ideias originais. Tudo o que defendem ou acreditam, aprenderam com alguém, tanto quanto qualquer religioso.


Precisamos saber rastrear as origens dos pensamentos. O verdadeiro preconceituoso é aquele que não consegue rastrear a sua posição doutrinal. A linha evangélica que diz  que as relações homossexuais são más porque isso está na Bíblia dá uma resposta intelectualmente muito mais decente do que quem diz "eu estou defendendo o amor contra o ódio e a posição contrária à minha é um preconceito", porque nesse caso não dá justificativa nenhuma.


1:54:09 Uma consequência da propagação da IG: os  Municípios terão dificuldade para saber quantos ginecologistas precisam contratar, pois a informação de quantidade de "mulheres" dada pelo Registro Civil não corresponderá à  população do sexo feminino.


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