ML: tema muito vigente.
PG: em inglês já se debate há muito
tempo, mas em espanhol é recente (últimos 4 anos).
ML: Creio que isso ocorre por uma questão
idiossincrática. Uma grande quantidade de pessoas não está preocupada com temas
de ciência ou tecnologia, ou questões existenciais, porque têm problemas mais
imediatos (como fome, educação, saúde). Mas na realidade em algum momento
entenderão que este debate está definindo a
reconfiguração de ideologias políticas e econômicas, e sobretudo atitudes
culturais e sociais que determinarão o século 21 e mais adiante.
PG: concorda. Há uma renovação das
correntes de pensamento sobre os benefícios que as tecnologias que a quarta
revolução industrial colocam ao alcance da coletividade humana.
PG: se apresenta como representante da
Sociedade Secular Humanista do Peru, que se dedica à promoção do pensamento
crítico. Apresenta ML como pensador peruano, de tendência conservadora, que se
nutriu de pensadores como **, a quem conheceu. Informa que cada um defenderá
uma posição diferente a respeito de como as diferentes tecnologias avançadas serão empregadas na sociedade,
especialmente as que dizem respeito ao organismo humano.
ML: sugere estabelecer os conceitos
básicos: o que significa transumanismo e o que significaria bioconservadorismo.
Sugere que PG defina tansumanismo.
PG: transumanismo é uma corrente de pensamento e um movimento
cultural que propõe a aplicação direta das tecnologias da quarta revolução
industrial no organismo humano para poder melhorar suas capacidades naturais e,
assim, iniciar um processo de evolução dirigida, denominada como melhoramento
humano. Essa é a tese central do transumanismo.
ML: concorda que o transumanismo é um
movimento cultural e agrega que também uma ideologia, que busca melhorar as capacidades
intelectuais, físicas, cognitivas e, inclusive, morais do ser humano (há
autores que falam de "moral enhancement"). Pede atenção ao conceito
de melhoramento, porque nisso fará sua primeira crítica.
ML: o bioconservadorismo é uma posição de ceticismo e prudência diante
do desenvolvimento tecnológico. Ceticismo e prudência, e não rejeição. O
bioconservador não necessariamente está ligado a crenças religiosas. O
bioconservadorismo pode ser
adotado desde uma perspectiva religiosa e também desde uma perspectiva
secular. Os autores transumanistas tendem a considerar os
bioconservadores como um todo só, sem fazer distinção. Os bioconservadores
querem uma aplicação cautelosa e progressiva da biotecnologia. Reforça que não
se trata de rejeição da biotecnologia. Os que descartam a biotecnologia são
duas correntes: os biologistas, que não crêem na tecnologia, e os anarcoprimitivistas,
que defendem a destruição da sociedade para o retorno das sociedades
nômades. Faz esse esclarecimento por causa de erros na literatura
transumanista.
PG: também podemos falar de
transumanismos, que se distinguem não somente quanto à questão de como a tese
central do transumanismo (melhoramento humano através da tecnologia) se
acopla à cosmovisão de cada ideologia, mas também quanto ao sistema moral que
essas ideologias possuem. Por exemplo, o arqueofuturismo (que
é um tipo de transumanismo da quarta ideologia política), o biohacking (que defende uma
ética mais "julgue você mesmo"). Neste cenário, com diferentes tipos
de transumanismo, PG sugere que possa haver um ponto de encontro entre o
bioconservadorismo e o transumanismo numa perspectiva ilustrada. Embora o
"transumanismo ilustrado" não exista na literatura transumanista, crê
que se pode incluir as obras de Julian Savulescu e Nick Bostrom, que são
críticos de tendências muito otimistas, são cautelosos... [defeito no video].
Conclui que acredita que há um ponto de encontro entre o bioconservadorismo,
tal como definido por ML, com um transumanismo que não é otimista
ou ingênuo, mas, ao contrário, um transumanismo crítico.
ML: sim, neste caso o ponto de encontro é
que deveríamos ter uma atitude de prudência principalmente. E, como você disse,
existem correntes no transumanismo. Pode-se falar, inclusive, de algumas
correntes fantásticas, que apelam à ciência, mas na verdade são ficção
científica, como o pós-humanismo ou o singulitarismo, que ainda não se
pode provar que são cientificamente factíveis, mas que são apresentadas
com uma certeza científica. Nick Bostrom é pós-humanista, Kurzweil é
singulitarista. Ou, ainda dentro das correntes transumanistas, pode-se
falar dos tecnoprogressitas, dos tecnolibertários, dos tecnoliberais, que
possuem como ponto de divergência quanto ao acesso e à distribuição das
tecnologias (que é também um ponto de divergência que tenho com o transumanismo,
se deve ser o mercado ou o Estado que dê acesso às tecnologias). Os biohackers
são tecnolibertários em essência, pois pensam que cada pessoa é soberana sobre
seu próprio corpo e pode fazer o que quiser.
ML: se partimos da cautela, podemos estar
de acordo. Mas nesse caso eu não falaria de transumanismo. Os avanços
tecnológicos ocorrem há séculos e em nenhum momento se falou em
transumanismo. E agora, principalmente com a biogenética, a inteligência
artificial e a robótica (que são os avanços atualmente com maior potencial de
implementação, fora outros como nanotecnologia ou impressão 3D), há muito
potencial para coisas boas. Estar de acordo com essas aplicações não transforma
a pessoa em um transumanista, porque com isso não se está advogando pela
abolição da [video com defeito].
ML: a palavra "melhora".
Essa é uma palavra que não está sujeita a escrutínio. Por que não se diz que o
transumanismo é uma ideologia, uma filosofia, que busca "modificar" o
ser humano? Isso seria mais correto, porque dizer que se vai
"melhorar" é um ato de fé, é apelar à esperança de que algo será
melhor. Quem sabe o que pode ser melhor? Essa é a minha primeira crítica: não
se trata necessariamente de melhora, mas de modificação.
PG: concorda que a tese central seria de
uma "modificação" do ser humano. O arqueofuturismo propõe que só seja
melhorada a elite dos impérios humanos. Podemos criticar essa postura, como
também podemos criticar a postura dos biohackers, pela irresponsabilidade que
pode ocorrer nos procedimentos. Isso nos leva à questão da análise do sistema
moral que adotemos (seja uma normativa de caráter universal, relativo ou
científico, como é proposto pelos humanistas seculares). Eu defendo o humanismo
secular, que vê o mundo de uma maneira naturalista, tanto como um sistema moral
que procura que os valores descritos estejam em comunhão com o conhecimento
científico, a partir de um axioma:
aproveitar a vida e ajudar os demais a viver uma vida digna. A
diferença entre um axioma e um dogma é que o axioma se submete a uma avaliação
com respeito às consequências úteis. Esse axioma se aplica a todos os
seres conscientes (incluindo robôs, numa realidade transumanista, e alguns
animais em nossa realidade). É importante entender que o critério de
modificação está em função do sistema moral que adotemos. Do ponto de vista
humanista secular, que segue a tradição ilustrada, existem valores universais e
que podem estar em comunhão com o conhecimento científico. Então, aí sim,
podemos falar de melhora, mas uma melhora que responde a um contexto.
ML: "aproveitar
a vida e ajudar os demais a viver uma vida digna" dificilmente
é um axioma. Um axioma é algo que não está sujeito a nenhum
tipo de interpretação, é algo inquestionável, é pura e perfeitamente
objetivo. Quando se fala em "aproveitar a vida", isso está sujeito a
interpretações, e nesse caso sequer estaríamos no campo dos fatos, mas no campo
fenomenológico, de uma interpretação pessoal ("o que é melhor para
mim, o que significa para mim aproveitar a vida?"). Pode-se falar em
crenças (que não se trata de uma apreciação fenomenológica, mas se refere
a um conjunto de pessoas que estão de acordo sobre algo que não
pode ser provado cientificamente). "Aproveitar a vida" é um
termo de interpretação muito amplo. E daí surgem alguns problemas do
transumanismo, como múltiplas versões do que deveria ser essa melhora. Os
transumanistas não gostam de falar do conceito de
"perfeição", porque é um conceito que os coloca em apuros, mas na
verdade quando falam de "melhora" estão falando de perfeição, porque
a melhora naturalmente aspira ao máximo, que é a perfeição. Aí surge o
problema, qual a interpretação de perfeição deve prevalecer sobre as
outras? Esse problema, na prática, vai se traduzir em conflito, pois surge o
problema de definir qual perfeição prevalece sobre as outras.
Eu me defino como um agnóstico
filocristão ou como um péssimo católico, pois tenho muitas dúvidas
sobre a existência de Deus. Mas se nos colocamos em um ponto de vista
utilitarista da religião, a utilidade social da Igreja foi muito grande. Existe
uma enorme ignorância e muitos preconceitos sobre a contribuição do
cristianismo ao Ocidente. Mas uma grande contribuição foi ter dado ao
Ocidente uma base comum de princípios morais universais, aplicáveis pela grande
massa das pessoas. E essas convenções morais são indispensáveis pra o
desenvolvimento de sociedades e viver em convivência.
PG: existe uma diferença epistemológica.
A ética como disciplina que estuda sistemas morais é exclusivamente filosófica
ou tem a ver com a evidência científica. Porque se é só uma disciplina
filosófica,então podemos...
ML: não, não é exclusivamente filosófica
de forma alguma. O ser humano não progrediu somente por causa da
filosofia, mas também da ciência. Questionar isso seria um absurdo. As
melhoras objetivas, quantificáveis, que o progresso tecnológico nos trouxe são
evidentes. Pode-se dizer objetivamente que a qualidade de vida das pessoas
melhorou nos últimos 120 anos. Mas isso também atraiu
"externalidades" negativas muito fortes (para usar uma linguagem da
economia). O secularismo teve um custo muito grande, porque é a perda de
identidade de uma civilização que hoje está se materializando com enorme crueza
na crise existencial da civilização ocidental, e que é produto, na minha
perspectiva, desta erosão da base moral universal que tínhamos no Ocidente, que
é o judeo-cristianismo. O que eu encontro no transumanismo não oferece um
substituto suficientemente forte e viável essa moral, que hoje vemos erodir.
PG: o transumanismo continuador do
humanismo secular possui toda uma engrenagem teórica,vendo um sistema moral
humanista que, podemos dizer, é a secularização de alguns princípios morais do
cristianismo. Tais princípios foram aproveitados por coincidirem com a
aplicação metodológica da ciência na investigação sobre a realidade. Alguns
autores humanistas propõem, inclusive, que a ética é uma ciência
normativa, que estaria em desenvolvimento. Na Bioética existem estudos
empíricos. Até mesmo a estética pode ser abordada desde um ponto de vista
científico, superando a crença de que se trata de disciplina exclusivamente
abordada pela filosofia. Então, se olhamos desde esse ponto de vista, a
ética humanista secular é universalista, mas se desliga dos conceitos
fiel-infiel, santo-ímpio, para falar simplesmente de seres humanos que buscam
viver uma vida boa, em termos de como afastamos tudo o que é contrário ao
bem-estar. Ou seja, não propriamente escapar da dor, mas aumentar o
bem-estar ao máximo possível. Um exemplo simples de humanismo secular é;
como é possível que ainda se lucre através do golpe, havendo evidências de
investigações psicológicas de que aprendemos mais com recompensa e que os
golpes podem causar danos psicológicos, emocionais, que em algum momento
talvez tenhamos a capacidade de quantificar. Portanto, sim, é possível
falar de valores que estão em comunhão com o que a evidência científica
nos brinda. Daí que o sistema moral humanista seja, de alguma maneira, uma
evolução do cristianismo, mas é principalmente um sistema moral que se constrói
de mãos dadas com a evidência científica. É lamentável que não seja um sistema
moral popular, deveríamos promovê-lo.
ML: a cura de uma doença nada tem a
ver com transumanismos, é apenas medicina. Reforça a importância
imensa do cristianismo para o Ocidente. Sugere conhecer Santo Tomás de Aquino.
ML: dentre as várias das ideias que
impulsionam o transumanismo, está a ideia de progresso. O transumanista aspira
ao progresso, guiado pela ciência e tecnologia. Essa ideia de progresso que os
transumanistas têm, e que o ocidente todo tem, nos termos em que estamos
elaborando nesse debate, nasce com Santo Agostinho de Hipona.
PG: é uma ideia mais antiga, do
zoroastrismo, da cultura indoeuropeia
ML: Sim, mas estou falando da nossa
civilização ocidental, desse conceito para a nossa civilização. Pode-se falar
do zoroastrismos perfeitamente, ou da Grécia antiga. Mas a ideia de progresso,
tal como conhecemos hoje, essa ideia linear, ascendente, universal, no qual a
etapa prévia é sempre inferior à atual, onde existe uma dimensão transcendental
(essa melhora espiritual a caminho da virtude para ganhar o paraíso), é uma
ideia nitidamente cristã e desenvolvida por Santo Agostinho de Hipona. Então,
quando vemos essas ideias tomadas do Iluminismo... O que o Iluminismo faz
é tomar princípios do cristianismo e começar a securalizá-los. Você fala,
por exemplo, da moral a partir da ciência. Mas eu também faço algumas
observações. A ciência cumpre funções específicas. Ela permite
interpretar o universo, descobrir suas leis, adquirir e organizar conhecimento,
e que isso pode ir progredindo. Mas a ciência não pode responder todas as
perguntas. Quando você diz "gozar a vida", como se pode
provar isso com o método científico. Ou como pode cientificamente padronizar o
conceito de "gozo"? Como chegar a uma objetividade pura e determinar
axiomaticamente qual é o propósito da vida?
PG: O bem-estar responde a fatos
concretos, com fenômenos naturais. E, tais fenômenos são quantificáveis.
Que isso seja complicado não significa que não possa ser resolvido. Por
exemplo, a nível das neurociências, há níveis químicos de excitação de áreas
específicas diante de determinados eventos e que são comuns à espécie humana.
Dentro da subjetividade humana, existe objetividade. Por exemplo, o
limite de dor, que, quando rompido, surge aquilo que definimos como dano. Vou
expressar uma miniteoria ontológica do progresso (ontologia guiada pela
evidência científica, ontologia como estudo das características gerais das
coisas concretas). Vejamos um sistema, um corpo que muda de estado.
Se o sistema, mudar de estado, e se dita mudança lhe permitiu melhorar seu rendimento
naquele contexto, estamos falando de uma mudança favorável. A essa
melhora, podemos chamar "progresso"
ML: Melhora em que termos?
PG: em termos de rendimento.
ML: em termos de rendimento. Importante.
Ok.
PG: de rendimento funcional, rendimento
de maneira genérica. E não digo que na realidade a mudança tenha sido
melhor, mas que nós avaliamos como uma mudança para melhor, porque percebemos
que o sistema melhorou seu rendimento.
ML: Nesse sentido, estou de acordo com
isso.
PG: o progresso seria a busca da
otimização do rendimento. E, como em termos humanos, o organismo é tão
complexo, não será necessário responder unicamente às questões de saúde física,
mas também emocional... então, há uma série de estruturas ou etapas, para
as quais precisamos continuar a investigação para tentar tornar objetivo na
medida do possível aquilo que poderia ser o bem-estar. Isso é complicado,
mas em todo caso nosso axioma parte daquilo que seria reduzir o que é
contrário ao bem-estar, reduzir o sofrimento. Gozar a vida, reduzindo o
sofrimento e ajudando os demais a que também vivam uma vida digna. É mais ou
menos por aí que vai proposta a perspectiva do humanismo secular.
ML: estou de acordo com a redução do
sofrimento. E isso é feito pela medicina. Não é preciso ser transumanista para
estar de acordo com isso. Agora, você fala de rendimento funcional. Isso
cai claramente na categoria do utililtarismo e materialismo. Há um
progresso de tipo objetivo, mensurável e quantificável, portanto é um
progresso que pode ser medido com ferramentas científicas, com o método
científico. No entanto, os aspectos objetivos não esgotam tudo o que a pessoa
é. Você se define como pessoa em termos quantitativos? Você poderia
definir tudo o que é Pedro Gayozzo apenas nessa dimensão quantitativa,
científica, material, utilitarista?
PG: sorri.
ML: Eu creio que não. Creio que é
muito mais do que isso. É como uma composição musical: ne se compõe a
partitura e pode ser usados instrumentos para a compor, mas quando essa música
é tocada a experiência supera largamente a análise dessa parte objetiva.
Essa é a experiência. E é aí que, para mim, o transumanismo falha, porque
nem tudo pode ser reduzido a átomos, medições, e a questões físicas, materiais.
Por isso é que somos muito mais do que a soma de nossas partes. E é por
isso que, para mim, o transumanismo tem um problema: ele produca padronizar os
seres e perde o valor daquelas coisas que são as mais simples em nossas
vidas, mas que possuem maior valor. Por exemplo, você tem um quadro, que
foi um presente de tua esposa. Esse quadro objetivamente não serve para nada,
senão para adornar. Mas o valor desse quadro não está em sua função, mas na
experiência que ele dê. E por mais que se quantifique, objetive esse
quadro, você não vai perder a experiência.
PG: a pessoa não deve ser vista
como uma coisa, mas como um processo.Todas essas células, todos esses traços
são minha pessoa, e eu sou a emergência de uma função, de um
processo dessa coleção de elementos materiais. Pedro Gayozzo é a
emergência da coleção de elementos materiais que conformam esse indivíduo. Um
sistema em constante mudança. Pode ser claramente explicado, mas não como uma
coisa e sim como um processo. Daí que a consciência também não é um algo,
mas é um processo, uma complexa mudança de estados que se sucedem no
cérebro, que respondem a estímulos elétricos, químicos e que sim podem
ser explicados. Talvez nesse momento não nos detalhes. Mas em princípio
podem sim ser explicados, porque respondem a fatos materiais, concretos.
Se estamos falando estritamente do natural, do material, se são fatos e
fenômenos, claro que é explicável.
ML: eu não neguei essa possibilidade.
Ao contrário, eu falei do exemplo da partitura musical. Nós podemos explicá-la.
Há um corpo de conhecimento por trás disso. É possível decompor a composição e
explicá-la, pode-se teorizar sobre ela, pode modificá-la se quiser, mas a
experiência não muda. Essa experiência trancende ao material, e por
isso falamos também de uma dimensão transcendente, que vai além do
físico, metafísico. Esse é o
ponto.
Agora, complementando um tema super
importante. Há uma crítica muito intensa, que está no coração de vários
transumanistas: uma indiferença, rejeição e inclusive aversão
à religião, especialmente ao cristianismo. Critica-se o pensamento
místico, as questões que não podem ser provadas cientificamente. Mas se
pensarmos bem, o transumanismo é uma religião humanista e secular. Porque suas
aspirações não foram materializadas, são atos de fé. Quando Bostrom fala
em fazermos um conjunto de informação flutuante no metaverso, isso é um ato de
fé. Veja: (os transumanista) jogam com o princípio de vida eterna,
ou derrotar a morte (conceito religioso), o conceito de bem-estar puro
(conceito de paraíso), quando se fala da criogênese (conceito de ressurreição).
Esses são, abertamente, atos de fé. Assim, o transumanismo critica muito duramente
a religião, mas em sua estrutura também assume caráter religioso. Também tem
seus profetas, os grande filósofos transumanistas. Sua estrutura é, em
essência, uma religião humanista secular.
PG: o fato de o transumanismo ter fé na
imortalidade não é um gol da Igreja ou de qualquer religião, só pelo fato
de ela também crer na imortalidade. [video com defeito] PG vê
a fé como "confiança". Quando solto uma maçã e a vejo cair, tenho fé,
tenho confiança de que a força gravitacional vai [video com defeito]. Por
isso me referi como um jogo de palavra: fé entendida como o que? Como uma
confiança no divino, que é uma fé experiencial? Mas também existe a fé do
ateu naquilo que pode ocorrer, uma espécie de confiança. Então, se entendermos
a fé apenas como confiança, repito o exemplo da força gravitacional,...
ML: isso não é um ato de confiança, é
uma certeza científica. Fé é dizer "vamos nos converter em
[inaudível]
PG: pede a palavra, dando a entender que foi
interrompido no meio do raciocínio.
PG: a confiança é uma ação que eu realizo
enquanto indivíduo. A confiança não existe objetivamente. Ou seja, o
objetivo, a descrição dos fatos é que a maça vai cair. Mas eu tenho
confiança em que vai cair porque creio e entendo como até agora o fenômeno foi
descrito, mas depois pode vir alguém e dizer "não, mas eu posso mover a
maça com a minha mente". Essa pessoa tem fé de que sua mente pode
mover a maça e não confia naquilo que a evidência científica demonstra. Então,
só podemos falar de fé como confiança, como uma ação que eu realizo. Então,
existe "crença" e "conhecimento". O conhecimento que
reflete sobre a descrição dos fatos e a crença que pode ser
expressa sobre um certo conhecimento. Poderíamos partir dessa diferença epistemológica,
para não concluir que a fé do transumanismo é uma fé cega. A confiança do
transumanista claro que pode ser criticada como pseudocientífica. Inclusive, eu
como transumanista critico algumas posturas.
ML: por que é tão difícil para um
secular dizer "fé"? Não se trata de confiança. A fé é um sentimento,
é uma atitude humana [video com defeito]...É um ato de humildade [video com
defeito]. Não podemos assegurar que todas essas aspirações dos
transumanistas vão se materializar, por isso eu digo que é um ato de fé.
Podemos dizer que a tecnologia oferece muitas potencialidades, mas coisa
diferente é dizer que tal coisa será conseguida pela ciência e tecnologia. O
problema que eu vejo no transumanismo é que se trata de um ato de fé que
peca por um otimismo ingênuo, na medida em que confunde a melhora
da qualidade de vida (como próteses em pessoas amputadas), mas daí a pensar em
alterar e reconfigurar o ser humano, isso é um salto de fé, que não está
sustentada pela ciência, porque nesse momento sequer sabemos como
funciona a maioria dos genes, e os transumanistas já estão
pensando em manipular genes para nos melhorar moralmente.
PG: nós, humanistas seculares, não
damos o progresso como algo garantido. Acreditamos que nossos antepassados do
Iluminismo se equivocaram. Se não houver condições para o progresso, se
continuar havendo nacionalismo, extremismos fundamentalistas, na
pseudociência,que estão proliferando, que mundo humanista poderíamos
esperar?
ML: pseudociência, estou de acordo com
isso. Falar em nome da ciência não me converte em um cientista, como os
biohackers. Eles são anticiência e antiética científica. Eu tive a
oportunidade de entrevistar David Pearce, cofundador da World
Transhumanist Association. Estive na "Transvision 2018", que
foi a 14a conferência mundial transumanista, conheci a todos: Natasha
Vita-More, Mas More... com todos eles. E vi nessa ocasião que se abraçava o
progesso com uma fé na tecnologia, na ciência, como elementos
emancipadores de nossas limitações. Mas o que eu via eram histórias de ficção
científica (ex., vamos nos tornar modulares, vamos fazer upload de nossos
pensamentos na nuvem). Uma coisa é que você tenha instrumentos científicos que
permitam, através de tentativa e erro, determinar que aplicações poderão ser
úteis para melhorar a condição do homem e melhorar a natureza do homem, para
melhorar a sua qualidade de vida , e outra coisa é apelar a essa ficção
científica, que de ciência não tem nada. Para propor cenários e, pior, determinar
políticas publicas. Você disse, quarta revolução industrial, esse conceito é
transumanismo feito política pública global. E isso é perigoso, não sabemos nem
caminhar e já estamos querendo correr.
PG: o perigoso, na verdade, para mim, é
que logo nacionalismos como a Rússia ou China, que exportam seu
tecnonacionalismo a outros países. A quarta revolução industrial vai depender
dos interesses de grupo. O que aconteceria se o Estado Islâmico tivesse
acesso a tecnologias de maior capacidade destrutiva.
ML: completamente de acordo. Plenamente
de acordo contigo, mas também estou preocupadíssimo, por exemplo, com o
papel que estão jogando os [?] tecnológicos estadunidenses. Falamos de
China, mas devemos falar também de Google, Facebook, Amazon, Microsoft, que são
donos de todas as tecnologias convergentes,
as mais importantes. Têm quase que uma posição oligopólica com relação à
inteligência artificial, em conjunto com empresas chinesas [citou os
nomes, não entendi]. Ou quando assumem posições oligopólicas quando
estão investindo em todas as [não entendi] de biotechs, química e farmácia.
Esse é um oligopólio, pois já não é mais o Estado que está exercendo o
poder político, mas alguns entes privados que, através da filantropia, estão
controlando a vida de milhares de pessoas. Esse é um modelo que me assusta.
PG: Daí a necessidade de que a ética
humanista secular se propague, que os humanistas seculares empreendam ações com
maior alcance. E por que não a ética cristã? Porque demonstraram, e continuam
demonstrando, muitos [conjuntos] fundamentalistas, baseados em uma
Revelação divina, contra a qual não podemos argumentar. E o humanismo secular
procura ver as coisas de um ponto de vista mais racional, com evidência.
Vemos uma conspiração de grupos conservadores religiosos.
ML: Essa ideia de que fé e razão
são incompatíveis é falsa. Os grandes cientistas do ocidente foram crentes
(Copernico, Newton, Pasteur).
PG: sim, no dia a dia a fé e a
razão podem não ser incompatíveis. Mas são incompatíveis porque são métodos
epistemológicos radicalmente distintos. Enquanto a razão não só se baseia na
lógica, mas também busca a evidência, e é um valor da ciência. E a
ciência é incompatível com a fé. A fé, como método epistemológico, não nos
levou a nada.
ML: a fé não é um método
epistemológico e não tem uma função epistemológica.
PG: se a fé é a pedra angular de toda a
crença e tradição religiosa, a religão não tem nada a dizer sobre a
realidade natural.
ML: é uma dimensão paralela. O fato
de você ter fé, em algo transcendente, não é incompatível com uma mentalidade
de busca, onde se pode sistematizar instrumentosm metodologias e chegar ao
conhecimento.
começam a falar ao mesmo tempo, não dá
para entender.
ML: ... por favor, Suma Teológica. Santo
Tomás de Aquino, já no século XIII dissociava fé e razão.
PG: em uma das encíclicas de Bento
XVI, "Veritas in caritatem", afirma-se que fé e razão estão
vinculadas, porque só se chega à razão através da fé. Se não nos fixarmos
na Encíclica, mas se nos fixarmos na Suma Teológica, no fato de que Santo Tomás
separou fé e razão, e a razão nos dias de hoje pode sustentar a
existência de seres sobrenaturais, faz tempo que a ciência deixou
de ser apenas razão. O pensamento mágico foi sistematizado
fim.
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