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Debate entre um transumanista e um bioconservador

 


 

 

 

 

 

 

00:39 ML: tema muito vigente.

 

01:13 PG: em inglês já se debate há muito tempo, mas em espanhol é recente (últimos 4 anos).

 

01:25 ML: Creio que isso ocorre por uma questão idiossincrática. Uma grande quantidade de pessoas não está preocupada com temas de ciência ou tecnologia, ou questões existenciais, porque têm problemas mais imediatos (como fome, educação, saúde). Mas na realidade em algum momento entenderão que este debate está definindo a reconfiguração de ideologias políticas e econômicas, e sobretudo atitudes culturais e sociais que determinarão o século 21 e mais adiante.

 

02:09 PG: concorda. Há uma renovação das correntes de pensamento sobre os benefícios que as tecnologias que a quarta revolução industrial colocam ao alcance da coletividade humana.

 

02:38 PG: se apresenta como representante da Sociedade Secular Humanista do Peru, que se dedica à promoção do pensamento crítico. Apresenta ML como pensador peruano, de tendência conservadora, que se nutriu de pensadores como **, a quem conheceu. Informa que cada um defenderá uma posição diferente a respeito de como as diferentes tecnologias avançadas serão empregadas na sociedade, especialmente as que dizem respeito ao organismo humano.

 

03:54 ML: sugere estabelecer os conceitos básicos: o que significa transumanismo e o que significaria bioconservadorismo. Sugere que PG defina tansumanismo.

 

04:15 PG: transumanismo é uma corrente de pensamento e um  movimento cultural que propõe a aplicação direta das tecnologias da quarta revolução industrial no organismo humano para poder melhorar suas capacidades naturais e, assim, iniciar um processo de evolução dirigida, denominada como melhoramento humano. Essa é a tese central do transumanismo.

 

04:50 ML: concorda que o transumanismo é um movimento cultural e agrega que também uma ideologia, que busca melhorar as capacidades intelectuais, físicas, cognitivas e, inclusive, morais do ser humano (há autores que falam de "moral enhancement"). Pede atenção ao conceito de  melhoramento, porque nisso fará sua primeira crítica. 

 

05:45 ML: o bioconservadorismo é uma posição de ceticismo e prudência diante do desenvolvimento tecnológico. Ceticismo e prudência, e não rejeição. O  bioconservador não necessariamente está ligado a crenças religiosas. O bioconservadorismo pode ser adotado desde uma  perspectiva religiosa e também desde uma perspectiva secular. Os autores transumanistas tendem a considerar os bioconservadores como um todo só, sem fazer distinção. Os bioconservadores querem uma aplicação cautelosa e progressiva da biotecnologia. Reforça que não se trata de rejeição da biotecnologia. Os que descartam a biotecnologia são duas correntes: os biologistas, que não crêem na tecnologia, e os anarcoprimitivistas, que defendem a destruição da sociedade para  o retorno das sociedades nômades. Faz esse esclarecimento por causa de erros na literatura transumanista.

 

07:54 PG: também podemos falar de transumanismos, que se distinguem não somente quanto à questão de como a tese central do transumanismo (melhoramento humano através da  tecnologia) se acopla à cosmovisão de cada ideologia, mas também quanto ao sistema moral que essas ideologias possuem. Por exemplo, o arqueofuturismo (que é um tipo de transumanismo da quarta ideologia política), o biohacking (que defende uma ética mais "julgue você mesmo"). Neste cenário, com diferentes tipos de transumanismo, PG sugere que possa haver um ponto de encontro entre o bioconservadorismo e o transumanismo numa perspectiva ilustrada. Embora o "transumanismo ilustrado" não exista na literatura transumanista, crê que se pode incluir as obras de Julian Savulescu e Nick Bostrom, que são críticos de tendências muito otimistas, são cautelosos... [defeito no video]. Conclui que acredita que há um ponto de encontro entre o bioconservadorismo, tal como definido  por ML, com um transumanismo que não é otimista ou  ingênuo, mas, ao contrário, um transumanismo crítico.

 

10:06 ML: sim, neste caso o ponto de encontro é que deveríamos ter uma atitude de prudência principalmente. E, como você disse, existem correntes no transumanismo. Pode-se falar, inclusive, de algumas correntes fantásticas, que apelam à ciência, mas na verdade são ficção científica, como o pós-humanismo ou o singulitarismo, que ainda não se pode  provar que são cientificamente factíveis, mas que são apresentadas com uma certeza científica. Nick Bostrom é pós-humanista, Kurzweil é singulitarista. Ou, ainda  dentro das correntes transumanistas, pode-se falar dos tecnoprogressitas, dos tecnolibertários, dos tecnoliberais, que possuem como ponto de divergência quanto ao acesso e à distribuição das tecnologias (que é também um ponto de divergência que tenho com o transumanismo, se deve ser o mercado ou o Estado que dê acesso às tecnologias). Os biohackers são tecnolibertários em essência, pois pensam que cada pessoa é soberana sobre seu próprio corpo e pode fazer o que quiser.

 

11:26 ML: se partimos da cautela, podemos estar de acordo. Mas nesse caso eu não  falaria de transumanismo. Os avanços tecnológicos ocorrem há séculos e em nenhum  momento se falou  em transumanismo. E agora, principalmente com a biogenética, a inteligência artificial e a robótica (que são os avanços atualmente com maior potencial de implementação, fora outros como nanotecnologia ou impressão 3D), há muito potencial para coisas boas. Estar de acordo com essas aplicações não transforma a pessoa  em um transumanista, porque com isso não se está advogando pela abolição da [video com defeito].

 

12:45 ML: a palavra  "melhora". Essa é uma palavra que não está sujeita a escrutínio. Por que não se diz que o transumanismo é uma ideologia, uma filosofia, que busca "modificar" o ser humano? Isso seria mais correto, porque dizer que se vai "melhorar" é um ato de fé, é apelar à esperança de que algo será melhor. Quem sabe o que pode ser melhor? Essa é a minha primeira crítica: não se trata necessariamente de melhora, mas de modificação.

 

13:23 PG: concorda que a tese central seria de uma "modificação" do ser humano. O arqueofuturismo propõe que só seja melhorada a elite dos impérios humanos. Podemos criticar essa postura, como também podemos criticar a postura dos biohackers, pela irresponsabilidade que pode ocorrer nos procedimentos. Isso nos leva à questão da análise do sistema moral que adotemos (seja uma  normativa de caráter universal, relativo ou científico, como é proposto pelos humanistas seculares). Eu defendo o humanismo secular, que vê o mundo de uma maneira naturalista, tanto como um sistema moral que procura que os valores descritos estejam em comunhão com o conhecimento científico, a partir de um axioma: aproveitar a vida e ajudar os demais a viver uma vida digna. A diferença entre um axioma e um dogma é que o axioma se submete a uma avaliação com respeito às consequências úteis. Esse axioma se aplica a todos os  seres conscientes (incluindo robôs, numa realidade transumanista, e alguns animais em nossa realidade). É importante entender que o critério de modificação está em função do sistema moral que adotemos. Do ponto de vista humanista secular, que segue a tradição ilustrada, existem valores universais e que podem estar em comunhão com o conhecimento científico. Então, aí sim, podemos falar de melhora, mas uma  melhora que responde a um contexto.

 

16:18 ML: "aproveitar a vida e ajudar os demais a viver uma  vida  digna" dificilmente é um axioma. Um axioma é algo que não está sujeito a nenhum tipo  de interpretação, é algo  inquestionável,  é pura e perfeitamente objetivo. Quando se fala em "aproveitar a vida", isso está sujeito a interpretações, e nesse caso sequer estaríamos no campo dos fatos, mas no campo fenomenológico, de uma  interpretação pessoal ("o que é melhor para mim, o que significa para mim aproveitar a vida?"). Pode-se falar em crenças (que não se trata de uma apreciação fenomenológica, mas  se refere a um conjunto de  pessoas  que estão de acordo sobre algo que não pode ser provado cientificamente).  "Aproveitar a vida" é um termo de interpretação muito amplo. E daí surgem alguns problemas do transumanismo, como múltiplas versões do que deveria ser essa melhora. Os transumanistas não gostam de falar do   conceito de "perfeição", porque é um conceito que os coloca em apuros, mas na verdade quando falam de "melhora" estão falando de perfeição, porque a melhora naturalmente aspira ao máximo, que é a perfeição. Aí surge o problema, qual a interpretação de  perfeição deve prevalecer sobre as outras? Esse problema, na prática, vai se traduzir em conflito, pois surge o problema de definir qual perfeição prevalece sobre as outras.

 

19:02 Eu me defino como um agnóstico filocristão ou como  um  péssimo católico, pois tenho muitas dúvidas sobre a existência de Deus. Mas se nos colocamos em um ponto de vista utilitarista da religião, a utilidade social da Igreja foi muito grande. Existe uma  enorme ignorância e muitos preconceitos sobre a contribuição do cristianismo  ao Ocidente. Mas uma grande contribuição foi ter dado ao Ocidente uma base comum de princípios morais universais, aplicáveis pela grande massa das pessoas. E essas  convenções morais são indispensáveis pra o desenvolvimento de sociedades e viver em convivência.

 

20:07 PG: existe uma diferença epistemológica. A ética como disciplina que estuda sistemas morais é exclusivamente filosófica ou tem a ver com a evidência científica. Porque se  é só uma disciplina filosófica,então podemos...

 

20:33 ML: não, não é exclusivamente filosófica de forma alguma. O  ser humano não progrediu somente por causa da filosofia, mas também da ciência. Questionar isso seria um absurdo.  As melhoras objetivas, quantificáveis, que o progresso tecnológico nos trouxe são evidentes. Pode-se dizer objetivamente que a qualidade de vida das pessoas melhorou nos últimos 120 anos. Mas isso também atraiu "externalidades" negativas muito fortes (para usar uma linguagem da economia). O secularismo teve um custo muito grande,  porque é a perda de identidade de uma civilização que hoje está se materializando com enorme crueza na crise existencial da civilização ocidental, e que é produto, na minha perspectiva, desta erosão da base moral universal que tínhamos no Ocidente, que é o judeo-cristianismo. O que eu encontro no transumanismo não oferece um substituto suficientemente forte e viável essa moral, que hoje vemos erodir.

 

21:49 PG: o transumanismo continuador  do humanismo secular possui toda uma engrenagem teórica,vendo um sistema moral humanista que, podemos dizer, é a secularização de alguns princípios morais do cristianismo. Tais princípios foram aproveitados por coincidirem com a aplicação metodológica da ciência na investigação sobre a realidade. Alguns autores humanistas propõem, inclusive, que a ética é uma ciência normativa,  que estaria em desenvolvimento. Na Bioética existem estudos empíricos. Até mesmo a estética pode ser abordada desde um ponto de vista científico, superando a crença de que se trata de disciplina exclusivamente abordada pela filosofia. Então,  se olhamos desde esse ponto de vista, a ética humanista secular é universalista, mas se desliga dos conceitos fiel-infiel, santo-ímpio, para falar simplesmente de seres humanos que buscam viver uma vida boa, em termos de como afastamos tudo o que é contrário ao bem-estar. Ou seja,  não propriamente escapar da dor, mas aumentar o bem-estar ao máximo possível. Um exemplo  simples de humanismo secular é; como é possível que ainda se lucre através do golpe, havendo evidências de investigações psicológicas de que aprendemos mais com recompensa e que os golpes podem causar danos psicológicos,  emocionais, que em algum momento talvez  tenhamos a capacidade de quantificar. Portanto, sim, é possível falar de valores  que estão em comunhão com o que a evidência científica nos brinda. Daí que o sistema moral humanista seja, de alguma maneira, uma evolução do cristianismo, mas é principalmente um sistema moral que se constrói de mãos dadas com a evidência científica. É lamentável que não seja um sistema moral popular, deveríamos promovê-lo.

 

25:20 ML: a cura de uma  doença nada tem a ver com  transumanismos, é apenas medicina.  Reforça a importância imensa do cristianismo para o Ocidente. Sugere conhecer Santo Tomás de Aquino.

 

26:35 ML: dentre as várias das ideias que impulsionam o transumanismo, está a ideia de progresso. O transumanista aspira ao progresso, guiado pela ciência e tecnologia. Essa ideia de progresso que os transumanistas têm, e que o ocidente todo tem, nos termos em que estamos elaborando nesse debate, nasce com Santo Agostinho de Hipona. 

 

27:12 PG: é uma ideia mais antiga, do zoroastrismo, da cultura indoeuropeia

 

27:22 ML: Sim, mas estou falando da nossa civilização ocidental, desse conceito para a nossa civilização. Pode-se falar do zoroastrismos perfeitamente, ou da Grécia antiga. Mas a ideia de progresso, tal como conhecemos hoje, essa ideia linear, ascendente, universal, no qual a etapa prévia é sempre inferior à atual, onde existe uma dimensão transcendental (essa melhora espiritual a caminho da virtude para ganhar o paraíso), é uma ideia nitidamente cristã e desenvolvida por Santo Agostinho de Hipona. Então, quando vemos essas ideias tomadas do Iluminismo... O  que o Iluminismo faz é tomar princípios do cristianismo e começar a securalizá-los. Você fala,  por exemplo, da moral a partir da ciência. Mas eu também faço algumas observações. A  ciência cumpre funções específicas. Ela permite interpretar o universo, descobrir suas leis, adquirir e organizar conhecimento, e que isso pode ir progredindo. Mas a ciência não pode responder todas as perguntas. Quando você diz  "gozar  a vida", como se pode provar isso com o método científico. Ou como pode cientificamente padronizar o conceito de "gozo"? Como chegar a uma objetividade pura e determinar axiomaticamente qual é o propósito da vida?

 

29:41 PG: O bem-estar responde a fatos concretos, com fenômenos naturais. E, tais fenômenos são quantificáveis.  Que isso seja complicado não significa que não possa ser resolvido. Por exemplo, a nível das neurociências, há níveis químicos de excitação de áreas específicas diante de determinados eventos e que são comuns à espécie humana. Dentro da subjetividade humana, existe objetividade. Por exemplo, o  limite de dor, que, quando rompido, surge aquilo que definimos como dano. Vou expressar uma  miniteoria ontológica do progresso (ontologia guiada pela evidência científica, ontologia como estudo das características gerais das coisas concretas).  Vejamos um sistema,  um corpo que muda de estado. Se o sistema, mudar de estado, e se dita mudança lhe permitiu melhorar seu rendimento naquele contexto, estamos  falando de uma mudança favorável. A essa melhora, podemos chamar "progresso"

 

32:09 ML: Melhora  em que termos?

 

32:10 PG: em termos de rendimento.

 

32:14 ML: em termos de rendimento. Importante. Ok.

 

32:25 PG: de rendimento funcional, rendimento de  maneira genérica. E não digo que na realidade a mudança tenha sido melhor, mas que nós avaliamos como uma mudança para melhor, porque percebemos que o sistema melhorou seu rendimento.

 

32:45 ML: Nesse sentido, estou de acordo com isso.

 

32:55 PG: o progresso seria a busca da otimização do rendimento. E, como em termos humanos, o organismo é tão complexo, não será necessário responder unicamente às questões de saúde física, mas também emocional... então, há uma  série de estruturas ou etapas, para as quais precisamos continuar a investigação para tentar tornar objetivo na medida do possível aquilo  que poderia ser o bem-estar. Isso é complicado, mas em todo caso nosso axioma parte  daquilo que seria reduzir o que é contrário ao bem-estar, reduzir o sofrimento. Gozar a vida, reduzindo o sofrimento e ajudando os demais a que também vivam uma vida digna. É mais ou menos por aí que vai proposta  a perspectiva do humanismo secular.

 

33:46 ML: estou de acordo com a redução do sofrimento. E isso é feito pela medicina. Não é preciso ser transumanista para estar de acordo com isso. Agora, você fala de rendimento funcional.  Isso cai claramente na categoria do  utililtarismo e materialismo. Há um progresso de tipo objetivo, mensurável e quantificável, portanto  é um progresso que pode ser medido  com ferramentas científicas, com o método científico. No entanto, os aspectos objetivos não esgotam tudo o que a pessoa é. Você se define como pessoa em termos quantitativos? Você  poderia definir tudo o que é Pedro Gayozzo apenas nessa  dimensão quantitativa, científica, material, utilitarista?

 

PG: sorri.

 

ML: Eu creio que não. Creio que é muito mais do que isso. É como uma composição musical:  ne se compõe a partitura e pode ser usados instrumentos para a compor, mas quando essa música é tocada a experiência supera largamente a análise dessa  parte objetiva. Essa  é a experiência. E é aí que, para mim, o transumanismo falha, porque nem tudo pode ser reduzido a átomos, medições, e a questões físicas, materiais. Por isso  é que somos muito mais do que a soma de nossas partes. E é por isso que, para mim, o transumanismo tem um problema: ele produca padronizar os seres e perde o valor daquelas coisas  que são as mais simples em nossas vidas, mas que possuem maior valor. Por exemplo, você tem um  quadro, que foi um presente de tua esposa. Esse quadro objetivamente não serve para nada, senão para adornar. Mas o valor desse quadro não está em sua função, mas na experiência que ele dê. E por mais que se quantifique, objetive esse  quadro, você não vai perder a experiência.

 

37:33 PG: a pessoa  não deve ser vista como uma coisa, mas como um processo.Todas essas células, todos esses traços são minha  pessoa, e eu sou a emergência de uma função, de um  processo dessa  coleção de elementos materiais. Pedro Gayozzo é a emergência da coleção de elementos materiais que conformam esse indivíduo. Um sistema em constante mudança. Pode ser claramente explicado, mas não como uma  coisa e sim como um processo. Daí que a consciência  também não é um algo, mas é um processo, uma complexa mudança de  estados que se sucedem no cérebro,  que respondem a estímulos elétricos, químicos e que sim podem ser explicados. Talvez  nesse momento não nos detalhes. Mas em princípio podem  sim ser explicados, porque respondem a fatos materiais, concretos. Se estamos falando estritamente do natural, do material, se são fatos e fenômenos, claro que é explicável.

 

39:51 ML: eu não neguei essa  possibilidade. Ao contrário, eu falei do exemplo da partitura musical. Nós podemos explicá-la. Há um corpo de conhecimento por trás disso. É possível decompor a composição e explicá-la, pode-se teorizar sobre ela, pode  modificá-la se quiser, mas a experiência não muda. Essa experiência  trancende ao material, e por isso  falamos também de uma  dimensão transcendente, que vai além do físico, metafísico. Esse é o ponto.

 

40:39 Agora, complementando um tema  super importante. Há uma crítica muito intensa, que está no coração de vários transumanistas: uma  indiferença,  rejeição e inclusive aversão à  religião, especialmente ao cristianismo. Critica-se o pensamento místico, as questões que não podem ser provadas cientificamente. Mas se pensarmos bem, o transumanismo é uma religião humanista e secular. Porque suas aspirações não  foram materializadas, são atos de fé. Quando Bostrom fala em fazermos um conjunto de informação flutuante no metaverso, isso é um ato de fé. Veja: (os transumanista) jogam com o  princípio de vida  eterna, ou derrotar a morte (conceito religioso), o  conceito de bem-estar puro (conceito de paraíso), quando se fala da criogênese (conceito de ressurreição). Esses são, abertamente, atos de fé. Assim, o transumanismo critica muito duramente a religião, mas em sua estrutura também assume caráter religioso. Também tem seus profetas, os  grande filósofos transumanistas. Sua estrutura é, em essência, uma religião humanista secular. 

 

42:45 PG: o fato de o transumanismo ter fé na imortalidade não é um gol da Igreja ou de qualquer religião, só pelo fato de  ela também  crer na imortalidade. [video com  defeito] PG vê a fé como "confiança". Quando solto uma maçã e a vejo cair, tenho fé, tenho  confiança de que a força gravitacional vai [video com defeito]. Por isso me referi como um jogo de palavra: fé entendida como o que? Como  uma confiança no divino, que é uma  fé experiencial? Mas também existe a fé do ateu naquilo que pode ocorrer, uma espécie de confiança. Então, se entendermos a fé apenas como confiança, repito o exemplo da força gravitacional,...

 

44:09 ML: isso não é um ato de confiança, é uma  certeza científica. Fé é dizer "vamos nos  converter em [inaudível]

 

PG: pede a  palavra, dando a entender que foi interrompido no meio do raciocínio.

 

44:24 PG: a confiança é uma ação que eu realizo enquanto indivíduo. A confiança não existe objetivamente. Ou seja, o  objetivo, a descrição dos fatos é  que a maça vai cair. Mas eu tenho  confiança em que vai cair porque creio e entendo como até agora o fenômeno foi descrito, mas depois pode vir alguém e dizer "não, mas eu posso mover a maça  com a minha mente". Essa pessoa tem fé de que sua mente pode mover a maça e não confia naquilo que a evidência científica demonstra. Então, só podemos falar de fé como confiança, como uma ação que eu realizo. Então, existe "crença" e "conhecimento". O conhecimento que reflete sobre a  descrição dos  fatos e a crença que pode ser expressa sobre um certo conhecimento. Poderíamos partir dessa diferença epistemológica,  para não concluir que a fé do transumanismo é uma fé cega. A confiança do transumanista claro que pode ser criticada como pseudocientífica. Inclusive, eu como transumanista critico algumas posturas.

 

46:55 ML: por  que é tão difícil para um secular dizer "fé"? Não se trata de confiança. A fé é um sentimento, é uma atitude humana [video com defeito]...É um ato de humildade [video com defeito].  Não podemos assegurar que todas essas aspirações dos transumanistas vão se materializar, por isso eu digo que é um ato de  fé. Podemos dizer que a tecnologia oferece muitas potencialidades, mas coisa diferente é dizer que tal coisa será conseguida pela ciência e tecnologia. O problema que eu vejo no transumanismo é  que se trata de um ato de fé que peca por um otimismo ingênuo, na  medida em que confunde a melhora  da qualidade de vida (como próteses em pessoas amputadas), mas daí a pensar em alterar e reconfigurar o ser humano, isso é um salto de fé, que não está sustentada pela ciência, porque nesse momento sequer sabemos como funciona  a maioria dos  genes,  e os transumanistas já estão pensando em manipular genes para nos melhorar moralmente.

 

49:19 PG: nós,  humanistas seculares, não damos o progresso como algo garantido. Acreditamos que nossos antepassados do Iluminismo se equivocaram. Se não houver condições para o progresso,  se continuar havendo nacionalismo, extremismos fundamentalistas, na pseudociência,que estão proliferando, que mundo humanista poderíamos esperar? 

 

50:44 ML: pseudociência, estou de acordo com isso. Falar em nome da ciência não me converte em um cientista, como os biohackers. Eles são anticiência e antiética  científica. Eu tive a oportunidade de entrevistar David  Pearce, cofundador da World Transhumanist Association. Estive na "Transvision 2018",  que foi a 14a conferência mundial transumanista, conheci a  todos: Natasha Vita-More, Mas More... com todos eles. E vi nessa ocasião que se abraçava o progesso com uma fé na  tecnologia, na ciência,  como elementos emancipadores de nossas limitações. Mas o que eu via eram histórias de ficção científica (ex., vamos nos tornar modulares, vamos fazer upload de nossos pensamentos na nuvem). Uma coisa é que você tenha instrumentos científicos que permitam, através de tentativa e erro, determinar que aplicações poderão ser úteis para melhorar a condição do homem e melhorar a natureza do homem, para melhorar a sua qualidade de vida , e outra coisa é apelar a essa ficção científica, que de ciência não tem nada. Para propor cenários e, pior, determinar políticas publicas. Você disse, quarta revolução industrial, esse conceito é transumanismo feito política pública global. E isso é perigoso, não sabemos nem caminhar e já estamos querendo correr.

 

52:51 PG: o perigoso, na verdade, para mim, é que logo nacionalismos como  a Rússia ou China, que exportam seu tecnonacionalismo a outros países. A quarta revolução industrial vai depender dos interesses  de grupo. O que aconteceria se o Estado Islâmico tivesse acesso a tecnologias de maior capacidade destrutiva.

 

53:17 ML: completamente de acordo. Plenamente de acordo contigo, mas também estou preocupadíssimo, por  exemplo, com o papel que estão jogando os [?] tecnológicos estadunidenses.  Falamos de China, mas devemos falar também de Google, Facebook, Amazon, Microsoft, que são donos de todas as tecnologias convergentes, as mais importantes. Têm quase que uma posição oligopólica com relação à inteligência artificial, em conjunto com empresas chinesas [citou os  nomes, não entendi]. Ou  quando assumem  posições oligopólicas quando estão investindo em todas as [não entendi] de biotechs, química e farmácia. Esse é um oligopólio, pois já  não é mais o Estado que está exercendo o poder político, mas alguns entes privados que, através da filantropia, estão controlando a vida de milhares de pessoas. Esse é um modelo que me assusta.

 

54:04 PG: Daí a necessidade de que a ética humanista secular se propague, que os humanistas seculares empreendam ações com maior alcance. E por que não a ética cristã? Porque demonstraram, e continuam demonstrando,  muitos [conjuntos] fundamentalistas, baseados em uma Revelação divina, contra a qual não podemos argumentar. E o humanismo secular procura ver as coisas de um ponto de  vista mais racional, com evidência. Vemos uma conspiração de grupos conservadores religiosos.

 

54:56 ML: Essa ideia de  que fé e razão são incompatíveis é falsa. Os grandes cientistas do ocidente foram crentes (Copernico, Newton, Pasteur).

 

55:17 PG: sim,  no dia a dia a fé e a razão podem não ser incompatíveis. Mas são incompatíveis porque são métodos epistemológicos radicalmente distintos. Enquanto a razão não só se baseia na lógica, mas  também busca a evidência, e é um  valor da ciência. E a ciência é incompatível com a fé. A fé, como método epistemológico, não nos levou a nada.

 

56:06 ML: a fé não é um  método epistemológico e não tem uma função epistemológica.

 

56:29 PG: se a fé é a pedra angular de toda a crença e tradição religiosa, a religão não tem  nada a dizer sobre a realidade natural.

 

56:36 ML: é uma  dimensão paralela. O fato de você ter fé, em algo transcendente, não é incompatível com uma mentalidade de busca, onde se pode sistematizar instrumentosm metodologias e chegar ao conhecimento.

 

56:59 começam a falar ao mesmo tempo, não dá para entender.

 

57:11 ML: ... por favor, Suma Teológica. Santo Tomás de Aquino, já no século XIII dissociava fé e razão.

 

57:19 PG: em uma das  encíclicas de Bento XVI, "Veritas in caritatem", afirma-se que fé e razão estão vinculadas, porque só se chega à  razão através da fé. Se não nos fixarmos na Encíclica, mas se nos fixarmos na Suma Teológica, no fato de que Santo Tomás separou fé e razão, e a razão nos dias de hoje pode  sustentar a existência de  seres sobrenaturais,  faz tempo que a ciência deixou de ser apenas razão. O pensamento mágico foi sistematizado

 

fim.

 

 

 

 

 

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